2 de ago. de 2012

Viciados em maconha


País tem 1,3 milhão de viciados em maconha
2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas ouviu 4.067 pessoas; número de jovens que admitiu usar a droga preocupa
Estudo usou cinco critérios para definir dependência, entre eles a sensação de perda de controle sobre o uso

Carlos tem 18 anos e é estudante de arquitetura. Começou a fumar maconha há dois anos. Tentou parar três vezes e não conseguiu.
Só de pensar em ficar sem seu "baseado" diário, começa a se sentir ansioso e "um pouco" fora de controle, disse.
"Me dá uma agonia gigantesca. Fico até mais irritado do que o normal", afirmou o estudante, que pediu para não ter o sobrenome divulgado.
Assim como ele há cerca de 1,3 milhão de brasileiros dependentes de maconha, de acordo com o 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas. O primeiro estudo, de 2006, não levantou o grau de dependência do usuário.
O trabalho foi feito por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo e do Inpad (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas), com financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), do governo federal.
Para chegar aos números, cerca de cem pesquisadores fizeram, de janeiro a março deste ano, entrevistas domiciliares com 4.067 pessoas em 149 cidades de todas as unidades da Federação. O resultado mostrou que há 1,5 milhão de jovens e adultos que usam maconha todos os dias.
Isso não quer dizer que todos esses usuários são viciados. "Pessoas que usam diariamente não são necessariamente dependentes. Assim como dependentes não precisam usar todo dia para o serem", afirmou a coordenadora do trabalho, a psicóloga Clarice Sandi Madruga.
A pesquisa usa cinco critérios para considerar se a pessoa é dependente ou não: 1) ansiedade por não ter a droga; 2) sensação de perda de controle sobre o uso; 3) preocupação com o próprio uso; 4) ter tentado parar; e 5) achar difícil ficar sem a droga.

JOVENS
Os dados, divulgados ontem, trazem uma informação considerada preocupante pelos formuladores do trabalho: o número de jovens que admitiu consumir a droga.
Em 2006, a cada adulto que consumia a droga havia também um jovem. Neste ano essa proporção foi de um adulto para 1,4 adolescente.
"Nos surpreendeu assim como o número de dependentes. Se tivesse que chutar, diria que 20% desses usuários eram dependentes, e não 37%, como mostrou a pesquisa", diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, diretor do Inpad.
Além disso, 62% afirmaram que consumiram maconha antes dos 18 anos.
Para Laranjeira, o levantamento serve para mostrar que a maconha vicia assim como outras drogas e, por isso, merece atenção do governo, principalmente no combate ao uso dela por adolescentes.
"Há pesquisas que mostram que um a cada dez jovens que consomem maconha terão, no futuro, transtornos psiquiátricos", disse.
O estudo mostrou que 75% dos brasileiros são contra a legalização da maconha, 11% são a favor e os demais não souberam (9%) ou não quiseram responder (5%).

Frases
"Sou a favor de descriminalizar o usuário da maconha. Ela tem um potencial de dependência baixo. É menor do que o do álcool, que é legalizado"
DARTIU XAVIER
psiquiatra, professor da Unifesp


"Legalizar a maconha não é o mais correto. Não podemos deixar uma minoria decidir pela maioria"
RONALDO LARANJEIRA
psiquiatra, professor da Unifesp


"Tem muita gente séria dizendo ser a favor da legalização. Já fui contra, mas agora sei que temos de debater essa questão"
ARTHUR GUERRA DE ANDRADE
psiquiatra, professor da USP


Depoimento
'97% da população deveria calar a boca', diz Zé Celso
Para o dramaturgo e criador do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, a proibição do uso da maconha implica gangsterismo. Leia seu depoimento.

"Fiquei surpreso! Somente uma elite de 3% do Brasil fumou maconha no último ano?! Logo, 97% deveriam calar a boca, pois têm preconceito, mas nunca experimentaram.
Fumo desde 1968. Estou com 75 anos. Acordo, fumo um e tomo guaraná em pó.
É absurdo que 3% da população já tenha fumado e foram armados exércitos para combatê-la... Proibição implica gangsterismo."
(MORRIS KACHANI)
Fonte: reportagem de Afonso Benites publicada na Folha de São Paulo, de 02/08/2012.

Nenhum comentário:

Postar um comentário